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‘A vida é maior do que a regra’

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O pastor Ed René Kivitz defende uma religião voltada mais para o homem do que para os ritos, dogmas e tabus. Em seu discurso, a humanidade sempre prevalece

Ed René Kivitz é teólogo, mestre em ciências da religião e pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, uma entre tantas igrejas evangélicas existentes. Ele explica que debaixo do guarda-chuva evangélico há pelo menos três ramos (a dele fica dentro do chamado histórico, ao lado do pentecostal e do neopentecostal) e que a diferença entre tantos grupos é gigante: “Não consigo encontrar na televisão nenhum tele-evangelista que represente o meu pensamento e a minha experiência religiosa”. Na conversa com a reportagem de BONS FLUIDOS, realizada durante uma tarde, na sede da igreja, o pastor falou sobre algumas das diferenças entre religião e espiritualidade no contexto atual. 

Desde sua visão do que seja pecado, passando por temas polêmicos como a homofobia e a presença crescente dos protestantes na política brasileira, o pastor defende soluções moderadas, apoiadas mais num princípio de consciência do indivíduo do que em regras e julgamentos preestabelecidos. Ed René Kivitz é bastante presente na mídia e nas redes sociais (Facebook, Twitter, Youtube e Vimeo) onde tem milhares de seguidores. Graças a esses canais, suas opiniões se espalham com rapidez e muitas vezes provocam críticas – inclusive entre os fiéis próximos. Tudo bem. “Faz parte da índole evangélica reivindicar a verdade”, justifica.
O cristianismo surgiu de um rei rejeitado pelo judaísmo. De onde surgiram os evangélicos? 
A tradição evangélica nasceu da reforma protestante, no século 16. O teólogo alemão Martinho Lutero não queria romper com a Igreja. Queria fazer um protesto dentro dela, apenas para minimizar o que considerava exagero [para Lutero, considerava exagero [ os padres tinham virado corretores imobiliários do céu vendendo vagas no paraíso, as indulgências], mas acabou se tornando independente e criou a primeira fenda do catolicismo romano. Ao longo da história, vários grupos tentaram dar forma à utopia dos evangelhos e dentre esses vários grupos, isso que nós compreendemos hoje como evangélicos. Mas o termo virou uma panaceia; já não quer dizer muita coisa. São várias tradições. 
Quais as principais diferenças entre esses grupos? 
Debaixo do termo evangélico há pelo menos três ramos. O histórico, que é caracterizado pelo estudo da Bíblia e sua ética decorrente (são as denominações que nascem da reforma protestante do século 16, como batistas, metodistas, presbiterianos, congregacionais e luteranos); o pentecostal, que surgiu em 1900, em Los Angeles, a partir de experiências com o Espírito Santo e é caracterizado principalmente pela profecia, cura divina e os chamados dons verbais (prática de uma língua estranha, como uma língua espiritual); e o neopentecostal, que no Brasil aflora nas décadas de 1960 e 70, onde entra forte o que se chama Teologia da Prosperidade, ou seja, se você é fi lho de Deus, você vai ser uma pessoa bem-sucedida e abençoada e a riqueza é um sinal disso.
Imagino que tantos grupos com uma mesma denominação crie alguns problemas. 
Muitos. Porque a gente fica dizendo ‘ah, eu sou evangélico, mas não sou isso que você está pensando’. Por exemplo, não consigo encontrar nenhum tele-evangelista que represente o meu pensamento e a minha experiência religiosa. Existe um estereótipo no qual não me encaixo. Os tele-evangelistas são apenas a face mais visível dos evangélicos, e certamente não são a melhor expressão do que somos. Gostaria de ser conhecido não pela sub-cultura religiosa evangélica, mas pelas virtudes de um cristão, um seguidor de Jesus Cristo. 
O que é pecado hoje? 
Para mim, é aquilo que desumaniza. E cada sociedade e contexto histórico vai ter as suas expressões de desumanização. A escravidão desumaniza no sentido de roubar a humanidade. Eu tenho de tratar você como um ser humano e meu igual. Toda vez que eu tratar você como alguém inferior a mim, estou cometendo um pecado. O pecado leva embora as potencialidades humanas psico-emocionais, volitivas, afetivas. Em um segundo aspecto, pecado é aquilo que a Bíblia diz que é. Só que, nesse caso, toda vez que a Bíblia diz que alguma coisa é pecado, faço a pergunta: onde está a descaracterização do humano nesse comportamento? 
É possível fazer a diferenciação entre pecado e pecadores? 
Pecadores somos todos. É uma condição humana de imperfeição. Todos temos algum esqueleto no armário que sabota a nossa humanização. Já pecado é a forma como a minha condição de pecador se manifesta.

Como fica a ideia da culpa? 
Vem junto. Nós todos somos afligidos por um senso de débito. Para com a própria consciência, para com o seu próximo. O evangelho é a notícia de que Deus nos ama, apesar disso. 
É como se todo mundo já nascesse devendo, mas com um crédito enorme? 
Sim. E dentro da estrutura lógica da fé cristã, esse crédito é conquistado com a morte de Jesus na cruz. Aquele que não tem pecado, morre no lugar de todos os pecadores. Como se Jesus pagasse a conta de todo mundo.
A sociedade nos mata de culpa ou nós é que ignoramos a necessidade de reflexão? 
A religião e a sociedade são dois instrumentos de controle. Se a gente deixa o ser humano sem regras, sem condicionamentos e sem ameaças, isso vira uma barbárie. Quanto menos esclarecida ou espiritualizada é uma consciência, mais sujeita às regras ela será. Quanto mais você confia no ser humano, mais você delega ao individual. Quanto menos você confia, mais você estabelece regras, controle e penalidades. A religião confia muito pouco no ser humano. 
O que é espiritualidade? 
Eu ficaria com a definição de que é um atributo humano, assim como a racionalidade, a emotividade, a volição (vontade). É aquilo que nos conecta, ou que nos chama para uma realidade que está fora dos cinco sentidos físicos. Não é resultado de sinapse, não é coisa de cérebro. 
Como o sr. vê a participação cada vez maior de evangélicos na política do Brasil, um país laico (que não está sujeito à nenhuma religião)? 
Primeiro: na minha tradição cristã evangélica batista, existe um princípio claro que é a separação entre Igreja e Estado. Segundo: acho que o principal ator político é o cidadão, não é o grupo ao qual ele pertence. Existem grupos organizados de militâncias que precisam encontrar oposição sob pena de que a democracia se degenere em ditadura das minorias. Nesse sentido, a bancada evangélica (a terceira maior no país), por mais passível de crítica que seja, presta um papel significativo de gritar determinadas coisas e valores. Um dos movimentos mais organizados, ativos e militantes é o da causa gay. Você não pode deixar que eles imponham sobre a nação a sua lógica; da mesma forma que não pode permitir que os evangélicos imponham a lógica evangélica. Acho saudável esse jogo de forças. 
Como o sr. lida com a questão do homossexualismo na sua igreja? Na Bíblia Sagrada, está escrito que a prática homossexual é condenável. Agora, sou pastor de uma comunidade e tenho dito para a minha comunidade parar de discutir o que é pecado e o que não é, e acolher as pessoas que chegam até nós, sem julgá-las. Vamos recebê-las, nos solidarizar com a dor delas e criar um ambiente favorável para que elas se livrem daquilo que lhes causa sofrimento.
O sr. também ampara aquele que não sofre por ser homossexual? 
Claro. Agora, lembre-se, a gente tem uma consciência religiosa e uma cultura religiosa. A presença do comportamento homossexual na comunidade vai gerar conflito. E o próprio ambiente vai, de certa maneira, tentar regular esse comportamento público. 
Mas apesar dos seus valores, o sr. coexiste com o outro. 
Não só na questão de gênero, mas em todas as outras áreas do comportamento humano, eu só acredito em uma ação que tenha origem na consciência da pessoa. Não quero que um sujeito pare de fumar porque eu falei que é pecado. Quero que ele pare se ele achar que deve e se quiser parar. 
Ou seja, o indivíduo tem um papel muito maior do que as regras.
Sim. Porque eu acredito na experiência religiosa como uma experiência de humanização. Mas não humanização do meu padrão do que é ser humano.
Qual a grande pergunta que precisa ser feita hoje, dentro do contexto religioso e espiritual?

Uma pergunta a respeito das diferentes faces de Deus. De que Deus estamos falando quando falamos ‘eu creio em Deus’? Uma coisa é você ter uma espiritualidade que diz: se você é filho de Deus, vai ser rico. E outra bem diferente é a que se diz: se você é filho de Deus, tem de fazer voto de pobreza. Um pensamento gera a América do Norte e outro gera a latinoamérica. Para nós, cristãos, a face mais pura de Deus é Jesus de Nazaré. Se as pessoas olhassem para Deus pelas lentes de Jesus de Nazaré, teriam espiritualidades muito mais saudáveis  que contribuiriam para a construção de sociedades muito mais sustentadas na justiça e na paz social. Jesus teve uma vida marcada por virtudes como justiça, generosidade, solidariedade, perdão e, acima de tudo, amor. Ele foi mais conhecido pelas coisas a respeito das quais era favor. E ele era a favor da vida. Eu acredito nisso de todo o meu coração.

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